sábado, 4 de abril de 2009

SEQUÊNCIA DIDÁTICA - REESCRITA DE CONTOS DE FADAS



Ler para melhor escrever – Seqüência didática:
Reescrita de contos de fadas







Introdução
Os contos de fadas são textos que, por seu conteúdo mágico, fascinam crianças e adultos ao longo dos tempos. Em geral, são histórias de autoria desconhecida, que fazem parte da cultura oral de um povo e que se perpetuaram, como todos os textos da tradição oral, pela passagem de geração a geração.
Não apenas a autoria é incerta, mas também a data de sua criação: o tempo de um conto de fadas é de, como nos dizem as histórias, “há muito tempo atrás”, num passado muito distante…
A sobrevivência deles até nossos dias deve-se a pesquisadores, que, cada um em sua época e em seu país, fizeram um verdadeiro trabalho de garimpagem dessas histórias, viajando em busca dos contadores e contadoras que guardaram em suas memórias esse repertório maravilhoso. Assim, temos as obras dos irmãos Grimm na Alemanha, Charles Perrault na França, Italo Calvino na Itália e Luís da Câmara Cascudo no Brasil. E há outras até mais antigas, como As mil
e uma noites, que reúnem contos árabes. Essas obras são responsáveis pela permanência até nossos dias de histórias que falam do povo, de sua história, de seus costumes, num universo em que o fantástico e o maravilhoso convivem com o cotidiano.
O interessante, ao estudar tais obras, é reconhecer contos semelhantes presentes em diferentes culturas, indicando que, ao viajar e entrar em contato com distintos povos, o ser humano não apenas trocou riquezas materiais ou aprendeu a dominar técnicas: também se apropriou de novas histórias, num intercâmbio de imaginários. Para os alunos, ler ou ouvir esses textos permite que conheçam outros povos, ou se reconheçam no imaginário deles e, desse modo, ampliem seu domínio sobre as formas de pensar, sentir e descrever o mundo.
Não são poucos os autores que explicam o valor que as histórias têm para nós, de tal forma que são conhecidas como “remédios para a alma”. E, para as crianças, a luta entre o bem e o mal, a virtude e a vileza, temas principais dessas histórias, ajudam a organizar um mundo psíquico em que diferentes e intensas emoções convivem. Os contos, nesse sentido, ajudam a criança a lidar com impulsos contraditórios, presentes em seu psiquismo.
Acrescido a esse valor cultural e formativo para o indivíduo, é importante apontar outro, profundamente relacionado ao nosso trabalho: ler contos de fadas talvez seja a forma mais segura de introduzir os alunos no universo literário.
Fascinadas pela temática desses textos, as crianças enfrentam desafios para compreendê-los, pois a linguagem nem sempre é simples. Com isso, ampliam seu universo lingüístico e seu vocabulário, conhecem estruturas diferentes de construção das frases e experimentam novas formas da linguagem, como o uso de metáforas ou outras figuras de retórica.

Apresentamos aqui uma seqüência didática na qual os alunos acompanharão a leitura feita por você, analisarão alguns efeitos da linguagem utilizada e serão desafiados a escrever um conto. Ao fazer a reescrita de uma história conhecida, terão oportunidade de pôr em jogo os conhecimentos que construíram a partir da leitura, preocupando-se em utilizar a linguagem mais adequada.
É preciso lembrar que a condição didática para que os alunos sejam capazes de realizar essa proposta é a participação em muitas situações de leitura de contos, mesmo que seja como ouvintes (ao acompanhar a leitura de outra pessoa). Além disso, lembre-se de que no Volume 2 desenvolvemos uma seqüência didática de produção oral desse gênero, e muito do que eles aprenderam naquele momento será mobilizado agora, ou seja, esta seqüência é praticamente
uma continuação daquela.
Aqui os alunos revisitarão também uma atividade já realizada no Volume 2: a produção oral com destino escrito de um conto. Será uma situação privilegiada para que troquem informações sobre a melhor linguagem a ser utilizada e compartilhem conhecimentos sobre a linguagem escrita, para poder utilizálos quando forem assumir a responsabilidade pela produção. A produção final
(reescrita de um conto) será realizada em duplas e incluirá os alunos que não escrevem alfabeticamente. Sugerimos que você adote agora outro critério para formar as duplas, reunindo os que já escrevem convencionalmente com outros que ainda não o fazem. Ambos deverão discutir a organização do texto e a forma de elaborá-lo, utilizando diferentes recursos discursivos. O aluno que escreve alfabeticamente será escriba, ou seja, terá a tarefa de transformar em escrita o texto elaborado por ambos.




O que se espera que os alunos aprendam
* A ampliar seus conhecimentos sobre a linguagem e os recursos discursivos presentes nos contos de fadas.
* A reapresentar uma história conhecida, considerando não apenas seu conteúdo, mas também a forma de contá-la.
* Alguns comportamentos de escritor, como:
• Planejar um texto e escrevê-lo.
• Preocupar-se em reapresentar o conteúdo da história.
• Preocupar-se em utilizar recursos discursivos para tornar a história mais interessante e a linguagem mais literária.
* A ampliar seus conhecimentos sobre a escrita, avançando em suas hipóteses (embora a seqüência não tenha como eixo o sistema de escrita, inclui situações que oferecem desafios nesse sentido).







Conteúdos
* A linguagem dos contos de fadas.
* Planejamento e produção escrita.
* Recursos discursivos dos contos de fadas.
* Interação em duplas.








Etapas da seqüência didática de reescrita de contos de fadasTodas as atividades previstas têm como objetivo ampliar os conhecimentos dos alunos sobre a linguagem dos contos e dar-lhes instrumentos para que possam escrever esse gênero de texto. Considerando que as crianças já conhecem a história, pois se trata de uma reescrita, e que podem se apoiar no texto-fonte, a atividade que finaliza a seqüência é um importante procedimento didático para que aprendam a produzir narrativas. As etapas que constituem a seqüência são:



1. Leitura de duas versões do mesmo conto de fadas.
2. Análise comparativa do início das duas versões.
3. Produção oral com destino escrito de uma terceira versão (a dos alunos).

4. Leitura de outro conto de fadas.
5. Comparação de duas versões do início de um conto de fadas.
6. Leitura de um novo conto de fadas e reescrita.


DETALHAMENTO DAS ETAPAS

1ª etapa: Leitura de duas versões de um conto de fadas
Como a situação é muito semelhante à de leitura de um conto para os alunos, você precisa deixar bem claro que o objetivo será outro. Explique-lhes que agora verão como uma mesma história pode ser contada de formas diferentes. É importante explicitar isso para que eles procurem prestar atenção na linguagem, nas escolhas que o escritor faz a cada momento, que contribuem para embelezar o texto e envolver o leitor.
Não se trata aqui de escolher uma das histórias, mas de mostrar a diversidade de possibilidades que a linguagem oferece. Observando como os escritores escolhem, a todo momento, o melhor jeito de expressar o que querem contar, os alunos poderão perceber que tais escolhas fazem parte da atividade de escrita. A preocupação com a linguagem é mais relevante quando abordamos textos literários, nos quais sua beleza (a função estética) acrescenta valor à produção.

2ª etapa: Análise comparativa de duas versões
Selecione nas duas versões trechos equivalentes, que se refiram à mesma parte da história, para que os alunos analisem formas diferentes de contar a mesma passagem. Compare, por exemplo, duas versões da história de Chapeuzinho Vermelho: como os escritores descrevem o bosque em que Chapeuzinho foi colher flores? Como cada um deles conta o encontro do lobo com a vovozinha? Não se pode esperar que as crianças, ainda pequenas, façam análises complexas. O importante é perceberem que tanto se pode iniciar a história com “numa manhã de primavera” como “num belo dia de sol”; ou que a personagem pode ser apresentada como “uma linda menina, de tranças douradas” como “uma criança adorável, querida e amada por todos”. Ao fazermos o olhar dos alunos se voltar para esses recursos, eles podem perceber que também terão opções variadas quando forem se ocupar de produzir seus textos.

3ª etapa: Produção oral com destino escrito de uma terceira versão (a dos alunos)
Não se esqueça, aqui os alunos vão ditar o texto para você! Especialmente no início da produção, é importante que os alunos busquem formas diferentes de elaborar a mesma parte da história e decidam entre si qual delas será escolhida. Eles não precisam reproduzir os textos-fonte, com as mesmas palavras. Espera- se que busquem formas interessantes de expressar o conteúdo, e não
que decorem o texto. Escreva o que os alunos forem ditando em uma folha de papel pardo. Interrompa a atividade quando começarem a mostrar cansaço – a atividade costuma ser produtiva durante 40 minutos, é desnecessário exceder esse tempo. Retome a produção em outra aula, iniciando pela leitura do que já foi escrito.

4ª etapa: Leitura de outro conto de fadasVocê fará a leitura para que os alunos conheçam a história e possam analisar seu início na próxima atividade. Siga os mesmos procedimentos e cuidados sugeridos para as demais atividades de leitura pelo professor Sugerimos que você leia a história “O lobo e os sete cabritinhos”.

5ª etapa: Comparação de duas versões do início de um conto de fadasAqui você vai orientar a comparação de duas versões do início do conto de fadas lido na aula anterior: uma versão bem simples e outra mais elaborada. A intenção é fazer com que seus alunos percebam a diferença entre dois tipos de narrativa: uma que se atém ao relato dos fatos e outra que recorre a certas formas de linguagem para embelezar o texto. O objetivo é que as crianças observem que, quando o escritor procura envolver o leitor, prender sua atenção e emocioná-lo, ele valoriza sua produção com alguns recursos de linguagem. Em outra atividade posterior, você pode propor aos alunos que manifestem o que aprenderam nessa aula, escrevendo as características da cabra e do lobo.

6ª etapa: Leitura de um novo conto de fadas e reescrita
Inicia-se aqui a preparação da reescrita, que é muito útil para os alunos aprenderem a produzir textos.
FONTE: Projeto Toda Força ao 1o Ano: guia para o planejamento do professor alfabetizador – orientações para o planejamento e avaliação do trabalho com o 1o ano do Ensino Fundamental / Secretaria Municipal de Educação. – São Paulo : SME / DOT, 2006.

Um comentário:

FORMADORA disse...

Boa tarde,

Obrigada pela sequência.Na verdade vou trabalhar com fábulas, mas com sua sequência fica fácil fazer outra para qualquer gênero.